A HERANÇA DA OBRA DO GÊNIO QUE CRIOU O BRASIL
JOSÉ BONIFÁCIO DE ANDRADE E SILVA: A HERANÇA DA OBRA DO GÊNIO QUE CRIOU O BRASIL[1]
Esta trabalho sobre a vida de José Bonifácio tem um duplo propósito: o primeiro, oferecer aos leitores mais um tijolo na construção e divulgação da gigantesca obra do Patriarca, em especial sobre seu pensamento político e como ele soube “espantar” para bem longe do país que criou os perigosos ventos jacobinos da desarmonia e fratura da unidade nacional; o segundo propósito é lembrar como ele soube afugentar a tradicional cobiça alienígena sobre nossas riquezas minerais.
Não é tarefa fácil escrever sobre o fundador da nacionalidade brasileira visto que foi um gênio especialista em agricultura, mineralogia, geologia, ciências florestais, filosofia clássica, etnologia indígena, química, economia e sociologia, que pensou à nação brasileira através de um projeto nacional de emancipação política com forte inclinação liberal que foi vitorioso na consagração da independência e liberdade tão almejada naquele momento histórico.
A história do Brasil sem José Bonifácio seria outra. Ela é quente, aveludada e de aroma que evoca memórias e emoções específicas igual ao café brasileiro. Ela se confunde com este ilustre herói nacional que é um dos honrados brasileiros integrantes do “Livro de Aço” ou “Livro de Heróis e Heroínas da Pátria”.
Sua herança de “projetos”, “autoridade” e “confiança” no país continental que criou concretizada em fatos reais e palpáveis merece nossa “continência”.
No seu caminho de gestor político (foram apenas 3 anos) respondeu com trabalho sério e dedicado, refazendo sempre o melhor eixo de direção para o país que amou como ninguém. Transformou o caminho (da independência) de árvores retorcidas com folhas amareladas em estrada excitante e viril. Tinha por hábito devolver o ódio pequeno dos pequenos com quentes lições.
Separar o Brasil de Portugal era um “caso” difícil. Enfrentou Bonifácio sem medo o desafio de combater a modorrenta papelocracia estatal. Demonstrou esforço, devotamento de ideias, equilíbrio nas decisões, forças importantes que destacam a construção da vitória da independência sobre a bolorenta aristocracia portuguesa à época.
Trouxe ânimo e vigor pelo “nascimento” do Brasil. Não se apequenou dos inimigos hidrófobos que apareciam no seu caminho. Soube construir importantes pontes para que seu sonho virasse realidade. Não cruzou os braços em nenhuma oportunidade. Aliás, o “político” que cruza o braço, à frente do arado, nem é pior ou melhor que ninguém, apenas um homem sem rumo…
Prenunciando o surgimento do embrião da independência nos importantes setores da sociedade à época, fossem monarquistas ou republicanos, o Patriarca lançou sua influência no modelo político por ele idealizado na formação de um grande Império além-mar garantindo para o “novo país” um papel de igualdade diante da metrópole.
A fertilidade do Projeto Nacional idealizado por José Bonifácio para o Brasil, em especial o viés “desenvolvimentista” deve sempre ser revisitado. Tal pensamento influenciou, pelo menos, 3(três) grandes nacionalistas: Getúlio Vargas, Juscelino Kubisctchek, Ernesto Geisel, até o início da década de 1990.
Todo projeto nacional de desenvolvimento de uma nação passa, inexoravelmente, pelo fortalecimento de uma indústria forte. Não há desenvolvimento sem a presença da indústria. País sem indústria nunca é sócio, mas sempre caudatário.
É urgente trazer à baila o legado da força que tem um Projeto Nacional para união de forças do Brasil, em especial quando foi idealizado visando à edificação da soberania nacional e à consolidação da unidade territorial nacional através da interiorização administrativa.
Sobre a interiorização administrativa foi o Pai da Pátria que propôs levar a capital do país para o interior do Brasil, e não o ex-presidente Juscelino Kubisctchek no famoso discurso na cidade de Jataí em Goiás quando questionado se levaria a capital para o Planalto Central respondeu que iria cumprir a Constituição.
Intelectual multifacetado Bonifácio foi um “templário” que viajou na máquina do tempo e desembarcou no século XIX possuidor de uma energia avassaladora na defesa de suas ideais, além de possuir atinada visão geopolítica na luta contra a fragmentação do território nacional e foi dos mais importantes artífices do nascimento de um país-continente. País este que nasceu gigante, dado que tinha o segundo maior território do mundo à época.
Não era um homem comum, mas sim um sábio “rebelde” que nasce a cada 500 (quinhentos) anos neste planeta e, assim, sua obra – incomparável, importante sempre lembrar disto – é gigantesca, nas ideais propagadas, nos valores defendidos, nas múltiplas virtudes e, principalmente, na energia de seu caráter, na privilegiada visão geopolítica à época e na tenacidade da busca dos objetivos.
Enfim, é necessário resgatar o fio da pedra fundamental do Projeto Andradino lançado e proposto por José Bonifácio, a maior cabeça política de seu tempo, com o propósito de apresentar ou reapresentar, a todos nós, maçons ou não, importantes etapas inerentes dos projetos de elaboração de nossa brasilidade.
Infelizmente no Brasil a historiografia brasileira, pelo menos até a tímida comemoração dos 200 anos de independência, não conseguiu fazer a ponte honesta mantendo o estudo da obra de Bonifácio à uma perspectiva restrita, retratando-o sem a importância histórica que lhe convém.
Como estudamos pouco a vida e a obra de José Bonifácio no Brasil a dimensão de seu pensamento (político, econômico e estratégico) se perde no tempo, e o abismo atualmente existente é palpável.
O nosso primeiro chanceler, ambientalista e geólogo tinha qualidades maiúsculas em opulência e sonhava pelo nascimento de um gigante. Pensou à nação de maneira global. Tal qual um verdadeiro estadista. Não tinha afeição por condecorações e honrarias. Algumas das balizas delineadas no Projeto de Nação por ele idealizado são atuais e modernas quanto eram há 200 anos e estupendos na grandeza engendrada.
O cuidadoso zelo com a manutenção da integridade nacional, a autonomia da condução da política econômica, a preocupação com os limites do equilíbrio dos poderes políticos e individuais dos cidadãos e a obstinada defesa da soberania nacional gerou e consolidou uma aura nacionalista que é, indiscutivelmente, a marca constante de sua obra.
Dos muitos anos que passou na Europa – foram exatamente 36 anos de estudos científicos, docência e funções administrativas em Portugal – o Patriarca pode respirar valores altruístas do iluminismo, ser aluno de gigantes, ler obras históricas, meditar sobre as características do conceito de Estado e Sociedade, mergulhar nos estudos da mineração e o meio ambiente.
De todas as experiências que teve na Europa por mais de 3(três) décadas não há como deixar de consignar que foi José Bonifácio espectador privilegiado de um dos maiores acontecimentos ocorridos à época no mundo que foi a Revolução Francesa de 1789, “mãe” de todas as revoltas que decorreram dela, e, porque não mencionar, inclusive a independência do Brasil foi um dos seus primeiros filhos legítimos.
O filho de uma das famílias mais ricas de Santos retornou ao Brasil em 1819, recebendo vários convites tão logo desembarcou no Rio de Janeiro. Mas seu coração pulsava em rever a mãe (o pai tinha falecido quando ele estava estudando na Europa) e familiares. Por pressão política acabou aceitando a função de Conselheiro de D. João VI.
O santista José Bonifácio assumiu o Ministério do Reino e dos Negócios Estrangeiros em janeiro de 1822. Organizou a ação militar contra os focos de resistência à independência. Permaneceu neste cargo até ser demitido por D. Pedro I em julho de 1823, momento em que passou à oposição. Em 11 de novembro de 1823, Bonifácio foi banido e se exilou na França por seis anos. De volta ao Brasil, e reconciliado com o imperador, assumiu a tutoria de quem viria a ser D. Pedro II.
Os autores são unânimes em afirmar que o Pai da Pátria procurou fomentar a construção de navios de guerra para defesa da imensa costa brasileira e teve a preocupação de “soldar” o norte do país com sul do Brasil e sabia ele que a “solda” não podia falhar, sob pena de causar um colapso na proposta de unidade territorial.
O mais famoso membro das família dos Andradas foi um nacionalista de escol que suportou cárcere, infâmia e expatriação, e não teve medo da anemia das instituições (pró-Portugal) presentes no Brasil, e que esta antologia sirva como um alerta para as instituições – tal qual fez José Bonifácio – reagirem, democraticamente, mostrando o caminho a ser seguido, apontando o que deve ser corrigido e indicando as ferramentas necessárias para tal desiderato, assumindo uma postura de independência nas ações e decisões.
José Bonifácio foi sempre muito dinâmico e centralizador. Com a centralização Bonifácio lembrava aos colegas de ministério que o ministro é do governo. Sempre trabalhou para evitar o surgimento de situações práticas do chamado “nó górdio do beco sem saída”.
Com olfato ativo e alerta, procurou nos caminhos da vida a melhor trilha para a independência do Brasil. Inegável que ajustou uma boa flecha, puxou e afrouxou a corda várias vezes, conseguindo que o dardo agudo rasgasse o céu atravessando as enormes dificuldades encontrando eco no destino divino.
Aliás, a vida pessoal é dinâmica e a gente não pode nunca beijar mais ou menos; trabalhar mais ou menos; acreditar mais ou menos; dar aula mais ou menos; ser amigo mais ou menos, sob pena de sermos uma pessoa mais ou menos….
Das dificuldades encontradas especialmente pelo fogo amigo de alguns de seus irmãos maçons, manteve o foco apesar do ruído produzido pelo tema da independência que chegava nas asas do vento tão suave como o zumbido longínquo das abelhas do Jardim Botânico, fundado em 13 de junho de 1808.
Portanto, o momento histórico em que estamos vivendo é extraordinário visto estar o mundo em “erupção”. Assim, se o leitor deste trabalho se vê diante de uma rotina de trabalho que não permite refletir o que está acontecendo atualmente no mundo e no Brasil, conquanto a rotina de trabalho seja abençoada em qualquer ofício, é necessário refletir nos caminhos que a vida apresenta para todos
Por último, o principal ensinamento do gigante que aqui nasceu é sobre a difícil construção das colunas que deixou como colossal herança, colunas estas que foram forjadas por um cientista e político que fundou o Brasil, homem de carne e osso, sobre um granito duro, muito raro nos dias de hoje.
[1] Fábio Cardoso Correia é advogado e escritor.
